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Desvendando o Amor

 

Em seguimento ao nosso último estudo, que teve como foco o fruto do Espírito, analisamos agora o mais importante dos frutos: o amor. Ao debruçarmos sobre os textos originais, grego e hebraico, percebemos que este fruto guarda uma tremenda força espiritual.

Em grego, amor é “ágape”, termo que também pode significar “afeição”, “benevolência” ou “caridade”. O interessante é que o termo “ágape” deriva-se de “airo”, que significa “levantar”, “suspender” ou “sustentar”. Em Mateus 4.6, essa palavra é usada da seguinte maneira: “Aos seus anjos ordenará a teu respeito que te guardem; e: Eles te susterão (arousin) nas suas mãos, para não tropeçares nalguma pedra”. Assim vemos que o amor está relacionado ao sustento. Deus nos ama porque nos sustenta em nossas vidas, provendo tudo o que é necessário para nossa sobrevivência. O próprio Espírito Santo nos sustenta, pois intercede por nós (Romanos 8.26). Da mesma forma, não podemos dizer que amamos nosso irmão se não o sustentamos em sua fraqueza. O próprio Cristo nos deu esse alerta. Aquele que não sustenta seu irmão em sua fome, sede, desabrigo, nudez, enfermidade ou cadeia terá a infelicidade de escutar de Cristo: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos” (Mateus 25.41). Compreender o amor é condição fundamental para se conhecer a Deus e dele obter a vida eterna, pois quem não ama (ou seja, quem não sustenta o seu próximo e é sustentado por Deus) não conhece a Deus, porque Deus é amor (1 João 4.8).

É também esse tipo de amor verdadeiro que nos leva a tomarmos a nossa própria cruz, entregando nossas vidas em benefício do próximo. Todos os cristãos são convidados, pelo próprio Cristo, a negarem-se a si mesmos e tomarem a própria cruz (Mateus 16.24). Inclusive, o verbo usado em Mateus 27.32 quando diz que Simão, o cireneu, foi obrigado a “carregar” a cruz é “are”, flexão de “airo”. Todavia, somente poderemos ser tirados (airo) da escravidão da morte e do pecado se conhecermos e praticarmos o verdadeiro amor (agape), que é sustentar (airo) o próximo, ou seja, dar a vida pelos nossos amigos (João 15.13).

O termo “airo” também pode trazer a ideia de “lançar” ou “remover”, como em Mateus 21.21: Jesus, porém, lhes respondeu: Em verdade vos digo que, se tiverdes fé e não duvidardes, não somente fareis o que foi feito à figueira, mas até mesmo, se a este monte disserdes: Ergue-te e lança-te (artheti) no mar, tal sucederá”. O verdadeiro amor lança fora todo medo, todo obstáculo e todo empecilho (1 João 4.18), pois foi através do amor pela humanidade (João 3.16) que Cristo foi capaz de destruir as obras do diabo (1 João 3.8).  

O termo “airo” também pode significar “zarpar”, ou seja, “levantar a âncora”, como em Atos 27.13: “Soprando brandamente o vento sul, e pensando eles ter alcançado o que desejavam, levantaram (arantes) âncora e foram costeando mais de perto a ilha de Creta”. Da mesma forma, quando nascemos de novo em Deus e temos contato com seu verdadeiro amor (1 João 4.7), iniciamos uma viagem, zarpando da terra do pecado em direção à Nova Jerusalém. Nesta viagem, quem conduz o barco é o Espírito Santo, como está escrito: “O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do Espírito” (João 3.8). Aquele que é nascido do Espírito entende o que é o amor, e inicia uma jornada com Cristo para trazer a este mundo o Reino de Deus, cujo fundamento é o amor.    

O curioso é que se em grego amor é “ágape”, temos em hebraico o termo “agab”, que significa “amar”, no sentido de “respirar por” ou “desejar”, “estar inflamado”. Assim, vemos que, em hebraico, este amor significa ansiar ardentemente por fazer a vontade de Deus, assim como Paulo que, mesmo diante do perigo de morte anunciado pelo profeta Ágabo (veja que curiosa a semelhança com ‘agab), não recuou, mas disse: “Que fazeis chorando e quebrantando-me o coração? Pois estou pronto não só para ser preso, mas até para morrer em Jerusalém pelo nome do Senhor Jesus” (Atos 21.13). Paulo estava pronto para entregar a vida em favor da causa do Evangelho e em resposta a seu compromisso com Cristo, expresso em 1 Coríntios 9.16: “Se anuncio o evangelho, não tenho de que me gloriar, pois sobre mim pesa essa obrigação; porque ai de mim se não pregar o evangelho!” Paulo, que era nascido de Deus, conhecia o verdadeiro amor. Por isso, abriu mão de seus sonhos para fazer a vontade de Deus e entregar sua vida pela humanidade.

Em hebraico, porém, a palavra que é mais usada para se referir ao amor é “‘ahav”. O curioso é que ‘ahav está diretamente relacionada com “‘ohad”, que significa “estar unido”. Aquele que realmente está unido a Cristo faz as obras que ele fez, que foram todas motivadas por um impressionante amor pela humanidade. Assim vemos que o amor não é um sentimento, mas uma ação. O termo “yahav” (que significa “dar”), outra variação de ‘ahav, nos mostra como o amor é um ato de doação. Foi por isso que “Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3.16).

Além disso, o termo derivado “yehav” significa “porção” ou “fardo”. Assim, entendemos o motivo pelo qual, em hebraico, os termos “amor”, “fardo”, “jugo”, “dar” e “sofrimento” estão todos relacionados.

Amar é tomar sobre si um fardo que era destinado ao próximo, é dar a vida pelos amigos. Amar é, em suma, conhecer a Deus, estar unido a Ele e fazer Sua vontade.

::Daniel Lopez

Jornalista e doutorando em Linguística na Universidade Federal Fluminense (UFF). É também professor universitário, tradutor e diretor do programa e ministério Desvendando o Original.
www.desvendandooriginal.blogspot.com / @Daniel_L_Lopez / @desvendandoorig / daniel4310lago@yahoo.com.br


Colaborador do portal Lagoinha.com